“Miscelânea”
A ironia da política brasileira, 15 anos após o Impeachment
por Bernardo Bercht
No último domingo, celebramos 15 anos do impeachment do presidente Fernando Collor de Mello por envolvimento em esquemas de corrupção promovidos por seu tesoureiro, Paulo César Farias. Um marco da História política nacional, uma vitória popular, liderada pelo movimento dos estudantes Caras Pintadas que pressionou o Congresso Nacional a votar a cassação do presidente às claras.
Em 30 de setembro de 1992, caiu o autodenominado presidente dos descamisados, mas que congelou a economia nacional, causando uma das maiores recessões da história. Não bloqueou as suas movimentações financeiras, assim como as do seu tesoureiro PC, porém. Envolvido em um esquema que movimentou milhões de dólares, no aliciamento de parlamentares e desvio de dinheiro público, Collor ficou isolado politicamente e teve seus direitos políticos cassados por oito anos, até 2000.
Itamar Franco assumiu o governo. O vice que, previamente, fora definido por Collor como “uma negativa de que há vida inteligente na Terra”. Num cenário econômico em que a inflação passava dos 1000%, o mandato de Itamar ganhou destaque pelo lançamento do Plano Real, em 1994.
Idealizado pelo economista Edmar Bacha e coordenado pelo então ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, o pacote econômico alcançou grande sucesso. Fortalecido pelo papel desempenhado, FHC foi eleito no pleito de 1994 e reeleito posteriormente. O segundo presidente eleito depois da abertura política não escapou de ter seu nome envolvido em casos de corrupção, no entanto.
Além das até hoje propagadas irregularidades na privatização da Vale do Rio Doce, que hoje teria lucro equivalente ao preço pelo qual foi vendida, ocorreram ainda as denúncias de resgate financeiro a empresas recém-privatizadas. Um aporte estipulado em quase 10 milhões de Reais dos cofres públicos.
Surgiram também especulações sobre compras de votos e trocas de favores para a aprovação da emenda constitucional que permitiu sua reeleição. Além disso, em um caso que seria posteriormente espelhado pelo filho de Luiz Inácio Lula da Silva, Pedro Henrique Cardoso foi acusado de superfaturamento num estande de comemoração dos 500 anos do Brasil, montado em Hannover (Alemanha), em 2000.
Chegamos, então, a outubro de 2002, quando o operário Lula foi aclamado pelas urnas e alçado à condição de novo salvador da pátria, como tantos antes. Passados cinco anos, a população vê que realidade voltou a se chocar no iceberg de corrupção que persegue a democracia brasileira. Apesar de, como no governo FHC, a participação de Lula não evidenciar uma associação direta com os casos de corrupção, as denúncias e CPIs (comissões parlamentares de inquérito) sucessivas voltaram a destruir a imagem da política nacional.
As denúncias que antes eram calculadas aos milhões de Reais, passaram a contabilizar as centenas de bilhões. “Toda a imagem do governo brasileiro é suja, o que me dá muita pena. O governo Lula é um desapontamento para todo o mundo. É uma surpresa as revelações de corrupção e a manipulação do dinheiro público”, chegou a declarar o cientista político americano Thomas Skidmore, em meio ao caso do Mensalão.
Observando a absolvição do presidente do Senado, Renan Calheiros, em votação secreta, surge a comparação com a cassação de Collor e a dúvida: o que desaprendemos do processo democrático nestes 15 anos? Fernando Collor, que foi eleito senador pelo Estado de Alagoas, em 2007, não compareceu à votação.
